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Nestes vinte anos, a visão constitucional de direito à vaga nas creches e préescolas

 

para os pais que trabalham vem sendo substituída pela ideia do direito que toda

 

a criança tem de frequentar uma escola de educação infantil. Isto evidencia uma

 

significativa mudança na compreensão dos direitos das crianças e também uma

 

importante aposta na contribuição que a escola de educação infantil pode oferecer às

 

crianças pequenas e às suas famílias.

 

As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (DCNEI, 2009)

 

garantindo uma visão sistêmica evidencia que esta instituição deve cumprir suas

 

funções para garantir o bem-estar das crianças, das famílias e dos profissionais.

Função social - Acolher, para educar e cuidar, crianças entre 0 e 5 anos,

 

 

compartilhando com as famílias o processo de formação da criança pequena em sua

 

integralidade. As creches e pré-escolas cumprem importante papel na construção de

 

valores como a solidariedade e o respeito ao bem comum, o aprendizado do convívio

 

com as diferentes culturas, identidades e singularidades, preservando a autonomia de

 

cada um.

Função política - Possibilitar a igualdade de direitos para as mulheres que desejam

 

 

exercer o direito à maternidade e também contribuir para que meninos e meninas

 

usufruam, desde pequenos, os seus direitos sociais e políticos como a participação e a

 

criticidade, tendo em vista a sua formação na cidadania.

Função pedagógica - Ser um lugar privilegiado de convivência entre crianças e adultos

 

 

e ampliação de saberes e conhecimentos de diferentes naturezas. Um espaço social que

 

valorize a sensibilidade, a criatividade, a ludicidade e a liberdade de expressão nas

 

diferentes manifestações artísticas e culturais.

 

Se, nos últimos anos, as vagas foram quantitativamente ampliadas ainda não é

 

possível afirmar que uma pedagogia específica para as crianças pequenas tenha sido

 

efetivada. Em grande parte das instituições, as singularidades das crianças de 0 a 3 anos,

 

especialmente os bebês, ficaram subsumidas às compreensões sobre o desenvolvimento

 

e a educação das crianças mais velhas. Afinal até hoje as legislações, os documentos, as

 

propostas pedagógicas e a bibliografia educacional privilegiaram a educação das

 

crianças maiores.

 

Isto é, apesar dos bebês e das crianças bem pequenas estarem presentes na

 

educação infantil, as propostas político-pedagógicas ainda mantêm invisíveis as suas

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particularidades e não têm dado atenção as especificidades da ação pedagógica nas

 

escolas de educação infantil.

 

Antes de iniciarmos a discussão da abordagem pedagógica vamos tentar definir

 

quem são os bebês. Sabemos que a idade biológica ou cronológica não pode ser a única

 

referência para definir até quando um ser humano pode ser denominado de bebê, pois as

 

experiências culturais afetam o crescimento e o desenvolvimento das crianças pequenas.

 

Em nossa cultura talvez possamos identificar a capacidade de andar, deslocando-se com

 

desenvoltura, e a de falar, ainda que apenas através de palavras e pequenas frases, como

 

sinais do final do período da vida que se define um bebê. Assim, neste texto, vamos

 

considerar como bebês as crianças do nascimento até 18 meses. Depois disto elas

 

podem ser chamadas de crianças pequenas ou pequenininhas.

2. AFINAL, QUEM SÃO OS BEBÊS?

 

 

Durante muitos anos os bebês foram descritos e definidos principalmente por

 

suas fragilidades, suas incapacidades e sua imaturidade. Porém, nos últimos tempos, as

 

pesquisas vêm demonstrando as inúmeras capacidades dos bebês. Temos cada vez um

 

maior conhecimento acerca da complexidade da sua herança genética, dos seus reflexos,

 

das suas competências sensoriais e, para além das suas capacidades orgânicas,

 

aprendemos que os bebês também são pessoas potentes no campo das relações sociais e

 

da cognição. Os bebês possuem um corpo onde afeto, intelecto e motricidade estão

 

profundamente conectados e é a forma particular como estes elementos se articulam que

 

vão definindo as singularidades de cada indivíduo ao longo de sua história. Cada bebê

 

possui um ritmo pessoal, uma forma de ser e de se comunicar.

 

Os bebês humanos quando chegam ao mundo necessitam um longo período de

 

atenção e cuidado para sobreviver. Um dos grandes compromissos dos adultos, que já

 

habitam neste mundo, é o de oferecer acolhimento para estes novos integrantes da

 

sociedade. Se, durante muitos anos, esta era uma tarefa apenas das famílias, hoje em

 

nossa sociedade, é necessário que seja uma tarefa compartilhada com outras pessoas ou

 

instituições. Cada vez mais, em nosso país, as mulheres trabalham fora de casa

 

motivadas pelo desejo de realização profissional, pela necessidade de independência

 

econômica ou então para contribuir com a renda familiar e o sustento dos filhos. As

 

novas diretrizes asseguram que todas as famílias brasileiras têm o direito de solicitar

 

vagas em creches e pré-escolas próximas às suas residências e sem requisito de seleção.

 

A ausência da família ampliada, isto é, de avós, tios, irmãos morando próximo e

 

ainda o envolvimento de muitos destes adultos no mundo do trabalho têm indicado a

 

escola de educação infantil como o parceiro privilegiado para ser o suporte dos pais e

 

das mães na tarefa de cuidar e educar as crianças pequenas. Esse papel de partilha não

 

se restringe ao apoio concreto durante o período de atendimento direto às crianças na

 

creche, mas também como referência para refletir sobre as ações de cuidado e a

 

educação das crianças pequenas.

 

As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil definem as escolas

 

infantis como instituições abertas às famílias e à comunidade, como um local que

 

oferece a efetivação de um direito social que todas as famílias têm, e que possui como

 

objetivo garantir bem-estar para todos. Nesse sentido, esse estabelecimento educacional

 

tem como foco a criança e como opção pedagógica ofertar uma experiência de infância

 

intensa e qualificada. Torna-se, assim, um espaço de vida coletiva onde, diferentemente

 

do ambiente doméstico, os bebês convivam com um grupo de crianças pequenas. Nesse

 

lugar, junto com seus amigos e amigas, sob a coordenação de adultos especializados, as

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crianças têm a possibilidade de experimentar, aprender e construir relações afetivas. Do

 

ponto de vista político-pedagógico, podemos selecionar três aspectos das diretrizes

 

curriculares que são imprescindíveis na constituição de proposta(s) para a educação dos

 

bebês em espaços de vida coletiva.

 

O primeiro é a compreensão dos bebês como sujeitos da história e de direitos.

 

Direito à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à

 

brincadeira, à convivência e à interação com outras crianças. Quando as crianças são

 

tomadas como seres capazes elas se tornam protagonistas no projeto educacional. Essa é

 

uma mudança paradigmática na compreensão da educação dos bebês, pois se afirma o

 

compromisso com a oferta de um serviço educacional que promova, para todas as

 

crianças, a possibilidade de viver uma experiência de infância comprometida com a

 

aprendizagem gerada pela ludicidade, brincadeira, imaginação e fantasia. Nesse espaço,

 

os bebês aprendem observando, tocando, experimentando, narrando, perguntando, e

 

construindo ações e sentidos sobre a natureza e a sociedade, recriando, deste modo, a

 

cultura.

 

O segundo é a defesa de uma sociedade que reconheça, valorize e respeite a

 

diversidade social e cultural, e que procure construir a igualdade de oportunidades

 

educacionais entre as crianças oferecendo acesso a bens culturais selecionados com os

 

critérios da interculturalidade, da democracia, bem como afirmando a ruptura com

 

relações de dominação como: a etária, socioeconômica, de gênero, regional, linguística

 

e religiosa e combatendo o racismo.

 

E, por último, a valorização das relações interpessoais, a convivência das

 

crianças entre elas, mas também entre os adultos e as crianças, pois são estas relações

 

sociais que oferecem os elementos para a construção da sociabilidade e da constituição

 

subjetiva de cada uma das crianças. Esse é um importante papel da educação infantil

 

principalmente no que se refere às crianças bem pequenas, pois nesta faixa etária as

 

interações entre as pessoas têm expressiva relevância para a construção das identidades

 

pessoal e coletiva das crianças.

3. CAMINHOS PARA A CONSTITUIÇÃO DE PEDAGOGIA(S)

 

ESPECÍFICA(S) PARA OS BEBÊS

 

 

As novas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil apresentam,

 

e defendem, uma concepção de sociedade, de educação e de infância que será adotada

 

pelos sistemas educacionais na orientação das políticas públicas de educação infantil,

 

porém elas precisam também estar presentes como fundamentação da organização do

 

cotidiano das escolas infantis. Os serviços de educação infantil podem, a partir das

 

concepções presentes nas diretrizes, revisar e reelaborar seus planejamentos e avaliar

 

suas propostas pedagógicas e curriculares.

 

As diretrizes apresentam a escola de educação infantil como um espaço

 

educacional que tem o importante papel de compartilhar, de forma indissociável, a

 

educação e cuidado das crianças pequenas com suas famílias. Essa é uma característica

 

essencial deste tipo de instituição e a distingue de outros tipos de estabelecimentos e

 

níveis educacionais. Como vimos anteriormente, a escola de educação infantil vem,

 

cada vez mais, ocupando o lugar da família ampliada especialmente nos grandes centros

 

urbanos. Isto é, ela oferece aos pais e responsáveis pelos bebês parceiros que

 

complementam a atenção, o cuidado e a educação dos bebês e também um espaço para

 

o encontro e a interlocução com pessoas qualificadas para dialogar sobre a educação das

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crianças pequenas. As famílias não podem ser vistas apenas como usuárias de um

 

serviço, mas como colaboradoras, isto é, co-autoras do processo educacional, pois é

 

preciso sintonia quando se trata de educar uma criança pequena ou um bebê.

Educar bebês na vida coletiva da escola

 

 

As crianças ao nascerem se defrontam com um mundo que está em processo

 

contínuo de constituição. Para receber estas crianças, os adultos responsáveis

 

selecionam de seu patrimônio afetivo, social e cultural as práticas de cuidado e

 

educação que consideram mais adequadas para oferecer bem-estar a estes bebês e para

 

educá-los.

 

Porém esta não é uma tarefa simples mesmo os responsáveis, isto é os pais das

 

crianças, provêm de mundos sociais diversos e necessitam de muito diálogo para

 

estabelecer parâmetros para a educação de seus filhos. Cada família tem um modo de

 

alimentar, embalar, acariciar, brincar, tranquilizar ou higienizar as crianças. E estas

 

ações podem ser realizadas de diversas formas, afinal as diferentes culturas inventaram

 

múltiplos modos de criar suas crianças pequenas. E cada família tem um modo

 

específico para compreender o choro de uma criança, suas necessidades de alimentação

 

e de brincadeira e fazer suas escolhas tendo em vista as tradições familiares ou

 

concepções aprendidas com diferentes interlocutores.

 

A escola precisa estabelecer uma relação efetiva com as famílias, e a

 

comunidade local, para conhecer e considerar, de modo crítico e reflexivo, os saberes,

 

as crenças, os valores e a diversidade de práticas sociais e culturais que cada grupo

 

social tem para criar seus bebês. Um bebê ao ingressar numa turma de berçário vai

 

ampliar seu universo pessoal ao conectar-se com universos familiares bastante

 

diferenciados.

 

Obviamente a escola, apesar de seu relacionamento com a comunidade e com as

 

famílias, terá estratégias educativas diferenciadas, pois ela precisa atender as crianças na

 

perspectiva da vida coletiva e não do atendimento individual como acontece nos lares.

 

A escola, com a participação dos pais, organiza em seu projeto político e pedagógico,

 

um modo de conceber a educação das crianças pequenas e oferecer práticas de vida

 

coletiva, sem se descuidar das singularidades de cada família, de cada bebê e de cada

 

profissional. Na escola de educação infantil, espaço público de educação coletiva, as

 

práticas de cuidado e educação de bebês tornam-se um importante campo de estudos,

 

debates e tomada de decisões que necessitam estar contemplados nos projetos

 

pedagógicos.

 

O Projeto Político-Pedagógico é o resultado de um trabalho conjunto entre

 

profissionais e famílias, um trabalho de reflexão, debate e confronto. Nele, a partir de

 

princípios legais, um grupo de gestores, pais, funcionários e professores selecionam e

 

explicitam os princípios educacionais que auxiliam aos pais e educadores a pensar sobre

 

o seu agir, isto é, a constituir referências e a compartilhar ações.

Um currículo para os bebês

 

 

Para os bebês, a ida para a creche significa a ampliação dos contatos com o

 

mundo, para os adultos, responsáveis pela educação das crianças na creche, significa

 

selecionar, refletir e organizar a vida na escola com práticas sociais que evidenciem os

 

modos como os professores compreendem o patrimônio cultural, artístico, ambiental,

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científico e tecnológico e os modos como traduzem, no exercício da docência, as suas

 

propostas pedagógicas.

 

As práticas sociais que as famílias e a escola ensinam para os bebês e as crianças

 

bem pequenas são as primeiras aprendizagens das crianças e constituem o repertório

 

inicial sobre o qual será continuamente constituída a identidade pessoal e as novas

 

aprendizagens das crianças. Por exemplo, os bebês aprendem a se vestir sendo

 

agasalhados pelos adultos, aos poucos, os pequenos iniciam um processo de

 

participação na ação de vestir-se e, finalmente, eles vão aprendendo a vestir sozinho

 

suas roupas, até mesmo a escolher e demonstrar suas preferências. Esses conhecimentos

 

sociais e culturais apesar de pouco valorizados nas escolas de educação infantil são

 

extremamente importantes para a constituição das crianças, dos seus hábitos, dos modos

 

de proceder, das suas relações e das construções sociocognitivas.

 

Essas práticas sociais são estruturadas através de linguagens simbólicas com

 

conteúdos culturais. Assim, as propostas pedagógicas dirigidas aos bebês devem ter

 

como objetivo garantir às crianças acesso aos processos de apropriação, renovação e

 

articulação de diferentes linguagens. É importante ter em vista que o currículo é

 

vivenciado pelas crianças pequenas não apenas através de propostas de atividades

 

dirigidas, mas principalmente através da imersão em experiências com pessoas e

 

objetos, constituindo uma história, uma narrativa de vida, bem como na interação com

 

diferentes linguagens, em situações contextualizadas, adquirindo, assim, o progressivo

 

domínio das linguagens gestuais, verbais, plásticas, dramáticas, musicais e outras e suas

 

formas específicas de expressão, de comunicação, de produção humana.

 

As concepções contemporâneas sobre os bebês, a infância, a aprendizagem e a

 

educação encaminham para a compreensão de um currículo que vislumbre o

 

desenvolvimento integral de crianças nas suas dimensões: expressivo-motora, afetiva,

 

cognitiva, linguística, ética, estética e sociocultural compreendendo as crianças em sua

 

multiplicidade e indivisibilidade.

 

Porém, quando pensamos nas crianças bem pequenas, isto é, nos bebês temos

 

dúvidas sobre como propor este currículo. Ora, não será certamente através de aulas, de

 

exposições verbais, mas, como vimos anteriormente, a partir da criação de uma vida

 

cotidiana com práticas sociais que possibilitem alargar horizontes, ampliar vivências em

 

linguagens, para que os bebês experienciem seus saberes. Serão exatamente esses

 

primeiros saberes, essas experiências vividas principalmente com o corpo, através das

 

brincadeiras, na relação com os outros – adultos e crianças – que irão constituir as bases

 

sobre as quais as crianças, mais tarde, irão sistematizar os conhecimentos que fazem

 

parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico.

4. ORGANIZAR UM PERCURSO EDUCATIVO PARA OS BEBÊS

 

 

Como vimos anteriormente, uma especificidade da pedagogia realizada junto aos

 

bebês é a da centralidade das brincadeiras e das relações sociais. Portanto esta é uma

 

pedagogia que torna imprescindível possibilitar encontros e visibilizar os modos e as

 

diversas formas de relacionamento que se estabelecem entre as pessoas. Educar bebês

 

não significa apenas a constituição e a aplicação de um projeto pedagógico objetivo,

 

mas implica em colocar-se, física e emocionalmente, à disposição das crianças e isto

 

exige dos adultos comprometimento e responsabilidade.

 

A responsabilidade, a competência, a formação dos gestores, professores e

 

demais profissionais precisa também estar vinculada à delicadeza, ternura, empatia e

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capacidade comunicativa. Os envolvidos na educação de bebês precisam protegê-los de

 

qualquer forma de violência – física ou simbólica – ou de negligência no interior da

 

instituição. Sempre que algum tipo de discriminação ou violência for praticada contra

 

um bebê é preciso realizar o encaminhamentos das violações para as instâncias

 

competentes.

 

A tarefa dessa pedagogia da pequeníssima infância é articular dois campos

 

teóricos: o do cuidado e o da educação, procurando que cada ato pedagógico, cada

 

palavra proferida tenha significado, tanto no contexto do cuidado – como ato de atenção

 

aquilo que temos de humano e singular – como de educação, processo de inserção dos

 

seres humanos, de forma crítica, no mundo já existente.

Uma pedagogia de encontros e relações

 

 

Numa sala de berçário muitas relações se estabelecem. Relações entre as

 

crianças e entre os adultos e as crianças. Porém as relações que se estabelecem entre os

 

diferentes adultos pais, professores e demais profissionais não pode ser descuidada.

 

Apesar de realizarem atividades diferenciadas, professores, gestores e os

 

diversos profissionais da escola, todos trabalham tendo um objetivo comum: oferecer

 

para as crianças e para as famílias uma escola de qualidade. Muitas vezes as

 

dificuldades nas relações entre os adultos acabam afetando o trabalho pedagógico e

 

também as próprias crianças. É indispensável que estes fatos sejam observados e que se

 

criem na escola momentos de formação para partilha das dificuldades, a comunicação, a

 

resolução de conflitos e a felicitação pelos êxitos.

 

As relações entre professores e crianças

 

Os adultos são responsáveis pela educação dos bebês, mas para compreendê-los

 

é preciso estar com eles, observar, “escutar as suas vozes”, acompanhar os seus corpos.

 

O professor acolhe, sustenta e desafia as crianças para que elas participem de um

 

percurso de vida compartilhado. Continuamente, o professor precisa observar e realizar

 

intervenções, avaliar, e adequar sua proposta às necessidades, desejos e potencialidades

 

do grupo de crianças e de cada uma delas em particular. A profissão de professora na

 

creche não é como muitos acreditam apenas a continuidade dos fazeres “maternos”, mas

 

uma construção de profissionalização que exige além de uma competência teórica,

 

metodológica e relacional.

 

As relações entre as crianças

 

As crianças na creche têm a experiência de viver cotidianamente em uma

 

coletividade com meninos e meninas de idades diversas. Os bebês desde muito cedo

 

procuram as outras crianças com olhares, esboçando sorrisos e sons, tentando através do

 

corpo tocar no colega. A ação pedagógica na turma de bebês deve favorecer o encontro

 

entre eles em diferentes espaços e momentos do dia. A professora ao observar precisa

 

estar atenta aos movimentos relacionais do grupo e favorecer o desenvolvimentos

 

corporal, afetivo e cognitivo dos bebês.

 

As relações com as famílias

 

A escola, através dos gestores e professores, tem o compromisso de construir

 

relações com as famílias. As relações podem ser propiciadas através de distintas formas

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de encontro, mais ou menos formais, como reuniões, entrevistas, festas... Isto é,

 

algumas situações individualizadas, e outras coletivas que favoreçam a escuta e as

 

trocas. Assim as famílias irão sentir-se valorizadas e afirmadas na sua função parental,

 

de responsáveis pela educação de seus filhos. A pluralidade de encontros favorece a

 

construção de laços, a confiança e a troca. Mesmo antes do ingresso dos bebês na

 

creche, é preciso que as famílias conheçam a escola e tenham tido a oportunidade de

 

compreender e discutir o projeto pedagógico. Uma relação de confiança dos pais ou

 

responsáveis na escola facilita estabelecer vínculos seguros dos bebês com a escola. A

 

interação da escola com as famílias é tão importante que vem sendo considerada como

 

um dos critérios fundamentais na avaliação de qualidade das creches.

Uma pedagogia para o dia a dia da sala de bebês

 

 

Para organizar um percurso de aprendizagem e desenvolvimento para os bebês é

 

preciso que se tenha um Projeto Político-pedagógico que defina objetivos de longo

 

prazo, pois a formação humana é algo que necessita de tempo. Além disso, cabe à

 

escola saber o que cada bebê, e o grupo de crianças pequenas precisa para, assim,

 

construir estratégias que possam oferecer às crianças as ferramentas necessárias para

 

compreender e apresentar-se ao mundo.

 

A explicitação nos objetivos das concepções educacionais e das estratégias

 

educacionais com as crianças pequenas é importante, pois possibilita aos educadores

 

compartilhar - tanto com seus colegas, no interior da escola, como com os pais e a

 

comunidade - seus princípios educativos. Ter concepções compartilhadas significa

 

argumentar, constituir coerência, estabelecer continuidade e estabilidade tanto

 

horizontal, na escola e na família, como vertical, entre as turmas ou níveis de ensino.

 

Tendo claro e compartilhado concepções e objetivos pode-se, então, começar a

 

constituir o processo educacional. Elaborar uma intervenção pedagógica numa turma de

 

bebês significa realizar ações de dois tipos: (a) a construção de um contexto e (b) a

 

organização de um percurso de vida.

Construir um contexto

 

 

Uma especificidade da pedagogia com os bebês é a sutileza, a forma indireta e

 

discreta com que se realiza. A primeira intervenção é no modo de constituir um

 

contexto, contexto que se bem organizado nos propiciará conhecê-las e interagir com

 

elas. Se inicialmente a professora organiza o ambiente, a presença das crianças, as

 

conversas com as famílias, as interações do grupo podem ir transformando esses

 

contextos. Se no início ele é mais material: móveis, brinquedos, decorações, pouco a

 

pouco ele se torna mais social, pois o aspecto social não existe sem o material e viceversa.

 

O contexto, como foi visto acima, se estrutura a partir de algumas variáveis

 

como: a organização do ambiente, os usos do tempo, a seleção e a oferta de materiais, a

 

seleção e a proposta de atividades e a organização da jornada cotidiana.

 

Organização do ambiente

 

A pesquisa sobre o espaço físico da escola nos ensina que os ambientes possuem

 

uma linguagem silenciosa, porém potente. Ele nos ensina como proceder, como olhar,

 

como participar. Uma sala limpa, organizada, iluminada, com acessibilidade aos

 

materiais, objetos e brinquedos é muito diferente de uma sala com muitos móveis, com

 

objetos e brinquedos fora do alcance das crianças e escura ou abafada. Cada um destes

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ambientes nos apresenta uma concepção de infância, de educação e cuidado. Os

 

ambientes são a materialização de um projeto educacional e cultural.

 

Alguns pesquisadores observaram que quando os espaços nas escolas estão bem

 

planejados o professor deixa de ser o único foco de atenção das crianças e o próprio

 

ambiente chama as crianças pequenas para diferentes atividades. Isto é, uma das tarefas

 

principais de um professor de bebês é criar um ambiente onde as crianças possam viver,

 

brincar e serem acompanhadas em suas aprendizagens individualmente e também em

 

pequenos grupos.

 

Os ambientes precisam ser coerentes com as necessidades das crianças,

 

proporcionando situações de desafio, mas também oferecendo segurança. Os ambientes,

 

quando bem pensados e propostos, incitam as crianças a explorar, a serem curiosas, a

 

procurar os colegas e os brinquedos, isto é, elas podem escolher de modo autônomo.

 

Ao organizar a sala para os bebês pequenos, é importante arranjar pequenos

 

espaços, confortáveis, com espelho, tapetes, rolinhos, almofadas, que possam auxiliar

 

na sustentação das crianças e favorecer seus movimentos. Tal espaço é organizado para

 

que as crianças interajam com outras crianças, brinquem com os objetos e brinquedos

 

podendo, assim, vivenciar diferentes experiências.

 

Quando as crianças ficam muitas horas num espaço de vida coletiva, é

 

interessante que se institua um lugar para colocar as coisas que vem de casa como, por

 

exemplo, as fotos da criança e da família, os brinquedos, e outros objetos que criam um

 

“oásis” de singularidade na vida e no espaço coletivo.

 

Como grande parte das ações das crianças pequenas está relacionada com o

 

ambiente físico e humano onde ela está situada, este lugar deve apresentar estabilidade,

 

sendo flexível e evidenciando quem são os seus usuários, seus nomes e marcas, seus

 

interesses atuais e seus processos de crescimento. Todo o material que entra em uma

 

sala para bebês deve ser avaliado em seu estado físico, nas possibilidades cognitivas,

 

motoras e sensoriais que oferece bem como na sua qualidade cultural. Constitui

 

compromisso da escola oferecer brinquedos e equipamentos que respeitem as

 

características ambientais e socioculturais da comunidade.

 

A sala pode estar organizada em microambientes temáticos com alguns materiais

 

mais estruturados, mas também com material não estruturado. Nesses pequenos

 

espaços, tapetes, colchonetes, cantos, tocas, as crianças exploram os objetos, constroem

 

cenários e estruturam brincadeiras coletivas e individuais. Também é preciso que a sala

 

tenha lugares como armários, caixas, cestos, onde possam ser guardados os materiais.

 

Os bebês na creche, além da sala, têm direito aos espaços de uso coletivo como

 

as bibliotecas, sala de música, o pátio e outros. O parquinho da escola é um espaço que

 

deve ser pensado e organizado na medida das crianças. Além disso, as crianças

 

pequenas necessitam de contato diário com a luz do sol, o ar fresco e com a observação

 

e interação com a natureza. Acima de tudo, o espaço que as crianças vivem tanto tempo

 

precisa ser prazeroso, bonito, relaxante, alegre.

Os usos do tempo

 

 

Talvez o tempo seja um importante elemento para a definição da especificidade

 

da educação dos bebês. As crianças pequenas precisam de tempo, de tempos longos

 

para brincar, para comer, para dormir. Tempos que sejam significativos. As crianças

 

pequenas, especialmente os bebês, têm a árdua tarefa de compreender e significar o

 

mundo e precisam de tempo para interagir, para observar, para usufruir e para criar.

 

Muitas vezes as pessoas pensam que os bebês têm pouca capacidade de atenção, de

 

envolvimento, de curiosidade e por este motivo não oferecem propostas de atividades

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para as crianças, ou, ao contrário trocam a cada momento as propostas. Ora, quando

 

temos efetivamente contato com os bebês e os observamos brincando sozinhos ou com

 

outros bebês verificamos que eles ficam intrigados e envolvidos com uma tarefa e

 

podem permanecer assim por muito tempo. A pressa, em geral é nossa, dos adultos.

 

Ter tempo para brincar, fazer a mesma torre muitas vezes, derrubar, reconstruir,

 

derrubar novamente, permite aos bebês sedimentar as suas experiências. A organização

 

de uma jornada na escola precisa contemplar as necessidades das crianças sejam elas de

 

ordem biológica, emocional, cognitiva, social e também oferecer tempos de

 

individualização e de socialização. Nossa sociedade, em nome da produtividade, tem

 

acelerado a vida: cada vez mais cedo e cada vez mais rápido. As crianças chegam às

 

escolas com organizações de vida diferenciadas e, aos poucos, vão sincronizando com o

 

grupo, isto é, a professora junto com as crianças vai construindo uma vida com tempos

 

compartilhados. Porém é preciso cuidado para que este processo não seja invasivo e

 

tenha atenção às necessidades, ritmos e escolhas individuais.

 

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